E se a própria interpretação do sofrimento docente também fosse produzida pela dominância da lógica capitalista na escola?
É muito comum ouvirmos de professores em sofrimento que eles “só queriam que todos fizessem a sua parte”, e que não têm condições de assumir o papel de pai, mãe, psicólogo, amigo e ainda ser professores dos estudantes.
Esse discurso, que demarca o papel do professor como “ensinante” ou responsável apenas por ensinar os conteúdos do currículo, corresponde a uma identidade produzida pela escola capitalista.
Na escola capitalista, as relações comunitárias e de afeto devem sempre ser sobrepostas pelas relações institucionais e culturais que servem à lógica do capital: todas as atividades escolares devem ser adaptadas e servir a um processo de mensuração, que reduz a complexidade e riqueza das relações humanas a um número comparável a outros, independentemente dos efeitos sobre as próprias pessoas que ali convivem ensinando e aprendendo.
No começo do século 20, num pequeno e pobre vilarejo no interior da França, um jovem professor se viu incomodado com uma estrutura escolar que o empurrava para assumir um papel autoritário diante dos estudantes.
Ao chegar à pequena escola de chão batido, Celestin Freinet foi recebido pelo diretor, que logo lhe explicou como deveria agir para impor à disciplina aos alunos, seja através dos gritos, de reguadas na mesa, de expulsões ou na aliança com os pais para impor à ordem.
Freinet decidiu ser amigável mas seguia à risca com as lições de moral, a leitura mecânica e sem contexto imposta pelo material didático, a escrita como cópia maçante do quadro e todas as técnicas que faziam parte da escola tradicional de sua época.
Mas a sua visão de camponês e as leituras revolucionárias que realizava no tempo livre, tornavam a cada dia mais cristalina a contradição que vivia: sonhava com uma escola que emanciaparia aqueles meninos pobres mas aplicava uma pedagogia autoritária, centrada no professor, que impunha a passividade e a obediência.
Ele entrou em crise, não queria mais seguir naquela posição, se preparou para o concurso de inspetor. Aquilo lhe fez suspender o rigor com que cumpria suas obrigações e passou a fazer vista grossa para o comportamento dos estudantes. Passou a olhar para eles buscando entender cada um. Começou a observar como ao longo do dia, eles revelavam ao olhar atento, os seus interesses, suas singularidades e pequenos gestos de companheirismo. Freinet enxergou ali um potencial que até então não percebia.
A partir dali começou a desconfiar das técnicas das escola tradicional, suspendeu as lições de moral e todo aquele sermão e passou escrever frases sugestivas no quadro incitando ações positivas, começou a incluir passeios em que saía com os estudantes da escola e percorria a vila conectando as observações dos alunos com temas do currículo.
Mesmo assim, quando voltava à sala de aula e seguia com as antigas práticas de leitura e a escrita, os alunos se dispersavam, não prestavam atenção, logo estavam conversando ou tentando sair da sala.
Logo ficou evidente para ele que os conflitos, o desinteresse e o mal estar que sentia não era culpa dele ou das crianças, ambos haviam se tornado reféns e cúmplices de uma rotina e de atividades que não faziam sentido, que os colocavam em posições antagônicas e contraditórias, que não poderiam produzir outros tipos de afetos e de maneiras de pensar e agir que não aquelas que os colocavam em conflito.
Freinet percebeu que a maneira de organizar as relações escolares produziam os modos de pensar, agir e sentir dos professores e de seus alunos. O seu sofrimento vinha da forma como a escola estava organizada.
Na escola do capital, as relações estão organizadas para reproduzir a cultura que interessa ao capitalismo, não à formação de comunidades e transformação social das relações.
A partir dali, ele passou toda a sua vida, junto a Élise Bruno, sua companheira e tantos outros professores, inventando e experimentando técnicas, mas também conectando-as de modo orgânico para que passassem a fazer sentido para todos que ali conviviam.
A esta nova construção social de ensino-aprendizagem, ele chamou escola do povo e a este modo de ensinar e de aprender de pedagogia popular.
A mudança de Freinet começou quando ele abandonou, com muita prudência, o papel que a escola capitalista queria que desempenhasse.
E aqui, não proponho que imitemos Freinet, mas que pensemos junto com ele, para entendermos a lição que ele nos dá sobre como lidar com o nosso sofrimento enquanto professores e professoras.
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