Fui perseguido porque priorizei ensinar aos meus alunos a pensar sobre o que queriam aprender, a resolver os conflitos conversando e a ler e estudar a partir dos seus interesses e necessidades. Desde o início, ao perceber que a grande maioria não gostava de ler e escrever, busquei maneiras de criar um ambiente em que isso fosse desejado. A mudança aconteceu, muitos avançaram rapidamente enquanto outros seguiam no seu ritmo mas também se desenvolvendo.
No entanto, fui aconselhado por superiores a seguir dando aulas com as apostilas de uma instituição terceirizada, preparar os alunos para simulados e cumprir um cronograma padrão que deveria ser seguido por todas as escolas: como se todos os alunos fossem iguais e aprendessem da mesma maneira e no mesmo ritmo.
Esse não é um caso isolado, esses dias me deparei com uma pesquisa do observatório nacional de violência contra educadoras/es. A pesquisa evidencia como quase 60% dos professores já sofreram algum tipo de intimidação, questionamentos agressivos sobre ligitimidade de tema ou método, convocação para prestar contas sobre método de trabalho ou intervenção direta sobre sua prática.
A pesquisa mostra como essas atitudes tem impactos diretos e indiretos sobre os professores, impactando os profissionais tanto na vida profissional como pessoal, além de afetar até mesmo os professores que não foram alvos diretos de perseguição.
Não é por acaso que temos visto um aumento expressivo dos índices de sofrimento dos professores, a saúde mental é diretamente afetada por estarmos num ambiente de trabalho que busca te vigiar e controlar para reproduzir determinados padrões.
Ela mostra como os questionamentos e as intervenções vem de múltiplos agentes, desde profissionais da área pedagógica da escola, até familiares, outros professores, gestãoda escola, funcionários da secretaria e até estudantes.
Somente quando busca apontar as causas do problema é que a pesquisa toca apenas na superfície da questão: ela atribui o problema apenas ao campo temático, apontando que há censura principalmente em relação pela exposição de temas ligados à política, gênero e sexualidade, religião, negacionismo cientício e questões étnico-raciais.
É fato que houve um crescimento de uma visão conservadora na nossa sociedade e isso impacta a visão de gestores, famílias e de muitos profissionais da educação. No entanto, há também um conservadorismo pedagógico ou escolar que não admite qualquer tipo de mudança, seja temática ou metodológica.
Muitas vezes o problema é que estas pessoas veem esses temas como questões não-escolares, como se a escola devesse se restringir a abordar os conteúdos estritamente curriculares, de modo a não relacionar o conteúdo das disciplinas com a vida real.
Essa tendência é reforçada por uma mudança estrutural que não aparece na pesquisa: a vinculação entre as metas do IDEB e a distribuição de recursos financeiros para estados e municípios. Apesar dessa mudança aparecer como mais força a partir do Novo Fundeb, desde 2015 vários estados começaram a implementar este tipo de política com a intenção de "incentivar" as escolas a aumentarem suas notas nas avaliações externas.
O efeito prático destas políticas foi a transformação das escolas em cursinhos precarizados. As aulas se tornaram em treinamento para simulados, que se multiplicaram com a justificativa de preparação para as avaliações externas, que por sua vez se tornaram eventos centrais nos calendários escolares.
De outro lado, por afetar diretamente o cálculo do IDEB, os professores começaram a ser cobrados pelas notas escolares dos estudantes. Notas baixas passaram a ser vistas apenas pelo risco que traziam à escola em relação aos seus efeitos negativos sobre os índices de avaliação. Não houve real preocupação em relação à aprendizagem, mas apenas pressão para que os professores facilitassem o avanço dos alunos entre as séries.
Isso mudou completamente as relações internas da escola. Professores passaram a ser vigiados por sistemas digitais que exigiam cada vez mais detalhes sobre o planejamento das aulas e a relação com os profissionais de apoio e a própria gestão se centraram na cobrança pelo treinamento para os simulados e avaliações externas.
Não que antes da implementação dessa política as coisas corressem às mil maravilhas, na educação nunca foi assim. Nunca houve valorização real dos professores e as condições de trabalho sempre foram precárias, mas ainda existia uma certa autonomia local, por mais que a escola sempre tenha sido autoritária e hierárquica. No entanto, a centralização trazida pelas políticas de metas vinculadas à distribuição de recursos desfez qualquer autonomia que pudesse existir a nível local e reestruturou as relações escolares de modo que as relações respondam prioritariamente ao batimento de metas.
Com isso, qualquer tema ou proposta metodológica que se desvie daquilo que sirva diretamente ao aumento desses índices, mesmo que estejamos falando das necessidades reais de aprendizagem dos estudantes, deve ser descartado ou reenquadrado nos parâmetros que se restringem à cumprir as metas estabelecidas da maneira mais "segura" possível.
No meu caso, quando questionado por superiores, eu respondi que iria continuar priorizando as necessidades de aprendizagem dos estudantes. A supervisora então veio assistir às minhas aulas, momentos em que os alunos estudavam por roteiros de estudo, construídos a partir dos seus interesses, em pequenos grupos. Após a "aula", nos reunimos numa sala e ela me disse que eu tinha que seguir a orientação da secretaria. Eu insisti, expliquei que isso seria um crime contra os estudantes, pois estaria negando o direito deles à educação.
Dias depois me mudaram de turmas. Fui retirado das turmas do 9º e 8º ano e passei a dar aulas no 7º e 6º ano, que eram turmas que não seriam avaliadas por provas externas.
Aquilo me impactou profundamente, cheguei a discutir com a coordenadora, inconformado por ter sido punido por pensar em primeiro lugar nos estudantes. E isso é bastante comum, pois nossa tendência é levar para o pessoal, individualizamos a "culpa" e os culpados. Mas depois busquei entender o sistema e percebi que a lógica das metas deve submeter qualquer um e qualquer relação ao poder dos números.
Tudo isso para dizer que, se não entendemos como e porquê o sistema funciona de uma determinada maneira, terminamos por nos culpar ou culpar os outros por serem cúmplices e agirem de modo anti-ético. Não há culpa, há sim cumplicidade, medo do poder e de perder poder. O sistema educacional não foi desenhado para emancipar ou produzir autonomia, mas para enquadrar e formar novas gerações submissas e adaptadas. Um sistema de reposição de peças das engrenagens que mantém a sociedade funcionando da maneira que funciona.
Entender profundamente como esse sistema funciona não é simples, nem fácil, mas nos permite ir encontrando brechas. Aos poucos, a desconstrução do sistema em nós abre caminhos para alternativas éticas, sem que precisemos nos expor para nos tornarmos alvo de punições e perseguições. Deixamos assim de nos culpar e de culpar os outros, não nos ressentimos nem adoecemos, mas passamos a focar em criar outros modos de ser professor, de ensinar e de aprender, experimentando e construindo outras possibilidades de ser escola.
É preciso, portanto, nos fortalecer coletivamente, e não apenas em coletividades já formalizadas como os sindicatos. Estes espaços geralmente são tomados por uma impessoalidade e burocracia que tiram sua força emancipatória. É preciso resgatar o caráter comunitário e produzir algo a partir dos problemas cotidianos: círculos de estudo para construir saídas pedagógicas juntos, publicações em que professores compartilhem reflexões e propostas, grupos de defesa para apoiar professores que sofrem perseguição. São formas concretas de retomar autonomia sem esperar que ela seja concedida pelo sistema.
Os problemas da escola podem e devem ser enfretados, as crianças e jovens devem ter o seu direito à educação garantido, mas isso não pode acontecer de modo a condená-los a uma educação autoritária, que oferece o mínimo. A alternativa é a construção de processos educacionais que emancipam e respondem às necessidades reais de estudantes, professores, profissionais da educação e famílias.
Quando a supervisora entrou na minha sala e viu os alunos estudando em grupos a partir dos seus próprios interesses, ela viu um problema. Eu via a escola finalmente funcionando e fazendo sentido para mim e para os estudantes. Essa diferença de visão começa em nós, mas ela não se resolve individualmente, passa por construirmos juntos, fora da lógica institucional, uma outra ideia do que a escola pode ser.