Outro dia assisti a um vídeo do sindicato de professores da Paraíba agradecendo publicamente, de modo bastante estranho, ao governador pelo aumento de 10% no salário base dos professores do estado. É óbvio que a valorização salarial dos professores é importante, mas o que me interessa analisar aqui é que isto não garante uma mudança estrutural e qualitativa na situação dos professores, talvez aumente inclusive sua dependência em relação ao poder. Fora da esfera salarial, hoje, os professores estão completamente afogados em burocracias, já que nos últimos 10 anos as políticas de batimento de metas em relação às avaliações externas e plataformização do trabalho docente estabeleceram um controle brutal sobre o tempo de trabalho do professor, seja dentro ou fora da escola. E isto não acontece por acaso. Antes, quando o controle e o poder institucional eram exercidos, de forma preponderante, a partir da própria escola, os professores, através de relações comunitárias entre seus pares e com a gestão e comunidade escolar, ainda conseguiam introduzir pequenas mudanças com mais facilidade, poderiam repensar juntos suas ações e práticas pedagógicas em busca de atender as necessidades reais dos estudantes. As dificuldades de implementar mudanças não eram menores, mas ainda havia discussões sobre pedagogia e algum espaço para a formação coletiva a partir dos problemas locais. Antes, em alguma medida era possível negociar com o diretor ou a diretora ali, na própria escola. Agora o poder se torna cada vez mais abstrato, impessoal e distante, as ordens "vem de lá cima", de uma instância exterior e sem relação direta com as pessoas da escola.
Hoje, com a implementação de políticas públicas que impõem uma centralização de controle e poder a partir das secretarias de educação, há uma padronização forçada das escolas, que são medidas e comparadas a partir do rastreamento do processo de implementação do currículo via plataformas, do ranqueamento a partir de simulados e das notas de avaliações externas. Isto reduz a complexidade do território escolar a algumas poucas variáveis numéricas que permite, para quem observa do centro do sistema de educação, um tipo de comparação reducionista entre as escolas. A produção da padronização como efeito massivo desse processo praticamente proibiu a construção de soluções locais para as necessidades específicas de cada escola e sufocou qualquer tipo de autonomia que os docentes poderiam ter no sentido de repensar seu trabalho, seja individualmente ou em conjunto. Em algumas escolas, chegou-se ao cúmulo de obrigarem os professores a usar suas horas de planejamento para refazer o trabalho que já fazem nas plataformas, mas dessa vez de forma manual, preenchendo planilhas que contêm as mesmas informações que são introduzidas nas plataformas.
Para além do discurso oficial e das justificativas utilizadas nos comunicados das secretarias estaduais ou municipais, o efeito real destas políticas é aumentar o controle sobre os professores, expandindo os braços do estado sobre as escolas por meio de políticas educacionais que, com a justificativa de um acompanhamento em tempo real, retiram o pouco da autonomia que estas ainda possuíam. O aumento salarial é um preço baixo a ser pago, já que é amplamente sabido que os efeitos colaterais dessas políticas fazem os professores adoecer, entrar em burnout pela sobrecarga de cobranças e a falta de sentido que tomou conta da profissão docente: reduzida agora a mera aplicação de currículo e treinamento para avaliações externas. Tudo isso possui também um efeito sobre os estudantes ao trasformar as escolas em cursinhos precarizados, onde a única e frágil justificativa para aprender é "passar em provas". Até mesmo políticas interessantes como o "Pé-de-meia" se tornam incapazes e insuficientes, pois não enfrentam a "robotização" e falta de sentido, que pairam sobre o cotidiano escolar, produzidas pelas políticas de batimento de metas, vigilância e produção de dados. O poder, centralizado, "lá de cima", só consegue lidar com números, impondo a padronização das relações entre as pessoas que estão "lá embaixo", querendo participar de situações que sejam interessantes e sobre as quais possam ter voz e autonomia na tomada decisões.
Diante disso, seria necessário pensar que tipo de "política afetiva" deveria estar sendo praticada para que haja, em primeiro lugar, uma garantia local da autonomia dos professores, dos estudantes e das comunidades, visto que estes são sempre os maiores afetados no presente e no futuro pelas práticas diárias nas quais estão envolvidos. Sem voz e liberdade para participar da construção das soluções para os problemas que enfrenta no seu dia a dia, a comunidade escolar se torna refém de normas e leis impostas por pessoas que nunca pisaram no chão da escola em que este coletivo de pessoas vive as suas relações. As políticas educacionais poderiam servir às comunidades atendendo às necessidades que emergem do chão das escolas como problemas, mas hoje ocorre o contrário: os problemas do chão de escola são multiplicados por políticas que também impedem que as pessoas criem soluções para os dilemas que aparecem no seu cotidiano.
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