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| Diagrama de Mark Lombardi |
Por ser professor, ando refletindo muito sobre os efeitos que a mudança da matriz educacional no Brasil tem causado no cotidiano das escolas e nas relações entre profissionais da educação e estudantes. Isso tem transformado e impactado a cultura escolar de cima a baixo. Essa mudança não é apenas pedagógica, mas também política e social.
Nas últimas décadas, é importante percebermos como a troca da matriz educacional - que antes operava o controle estatal sobre a educação de modo mais difuso e local - pela implementação progressiva de padrões abstratos e universais de “avaliação”, por meio da construção de indicadores e índices hoje unificados em uma métrica nomeada como IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), tem ocorrido. Essa abstração, por ser numérica, ganha um peso que lhe confere um falso poder de quantificar realidades complexas, passando a orientar políticas públicas, metas institucionais e práticas pedagógicas.
Para entender essa mudança, vale observar outro campo. Nas redes sociais, métricas como o número de curtidas, visualizações e tempo de retenção atuam como padrões abstratos e universais que permitem identificar, classificar e estimular a circulação de determinados tipos de conteúdos que prendem a atenção dos usuários na plataforma. Esses números não apenas medem, mas induzem comportamentos, moldam a produção de conteúdos e reorganizam o ambiente das redes de acordo com o que pode ser quantificado por essas métricas.
Nesse caso, a retenção da atenção e o aumento do tempo de tela são fatores determinantes para o lucro das big techs, enquanto, no sistema educacional, a produção de estatísticas é determinante para manter o controle sobre o sistema escolar, por meio da indução de modos de pensar, agir e sentir que estejam de acordo com a produção de subjetividade das gerações futuras, adaptadas ao modo de vida capitalista desde a infância. Isso se dá por meio da verificação da aprendizagem por notas que a quantificam por provas padronizadas, mas também pelo estabelecimento de metas para as escolas, o que ocorre via transmissão de obediência às hierarquias, normas, regras, leis e a uma moral estabelecida por autoridades que punem desvios e recompensam os bem adaptados.
Toda a questão da aprendizagem para a emancipação e para uma autonomia cidadã corre em segundo ou terceiro plano, apesar de ser um elemento central nos planos de marketing dos políticos. Daí que as mudanças que envolveriam um real impacto nas relações escolares - entre educadores, estudantes e famílias - no favorecimento e na transformação positiva das relações de aprendizado não aparecem nas políticas públicas e não são consideradas importantes, sendo inclusive desencorajadas pela lógica da produção de dados. Essa reorganização contínua das relações escolares, de acordo com as métricas que quantificam a aprendizagem por meio de provas padronizadas, tende também a impor formas fixas às práticas já estabelecidas, baseadas em burocracia e hierarquização, focadas em transmitir conteúdos, confundindo avaliação com quantificação e intervindo em realidades distintas como se fossem iguais.
Nas redes sociais, a lógica do número de curtidas e da retenção da atenção define que tipo de vídeos e postagens serão redistribuídos de modo amplo e considerados relevantes, o que impõe certo padrão pela adequação a um determinado tipo de produção de conteúdos, baseado naquelas postagens que mais se destacam e viralizam. Mas há também uma limitação imposta por filtros pré-definidos pelas plataformas para forçar a produção de conteúdos rapidamente consumíveis. Todos esses componentes, enquanto padrões abstratos e universais que se traduzem em métricas e filtros - que limitam de antemão o tipo de conteúdo a ser produzido - estão diretamente relacionados ao interesse em moldar e reorganizar continuamente um ambiente que controle o usuário, no sentido de capturar sua atenção para vender produtos, justificando, assim, os investimentos comerciais na plataforma.
Na escola não é diferente, pois é também o estabelecimento de um padrão abstrato e universal como o IDEB, e de outros tipos de indicadores em nível local, que passa a definir e controlar a pauta das reuniões das secretarias de educação e das escolas. Esses indicadores pairam como metas e objetivos finais por trás de qualquer aula, tornando-se condição para bonificações de professores e para concursos e premiações de alunos e educadores nota 10. Os efeitos do estabelecimento de indicadores ou métricas para a avaliação de um ambiente de relações humanas complexas redesenham toda a rede de relações e de maneiras de sentir, agir e pensar no espaço escolar: burocratizam, hierarquizam e funcionalizam relações a partir de números abstratos que definem recompensas e punições. As relações humanas se tornam empecilhos ou facilitadores para o batimento de metas, que figuram como prioridade absoluta. As pessoas se tornam apenas funções, papéis dentro dessa lógica que redesenha a cada momento o ambiente escolar. Quem não se adapta, ousa desviar dos objetivos impostos ou atrapalha sua busca incessante é considerado um problema, alguém que precisa se adaptar, sendo enquadrado ou excluído, seja aluno ou professor.
Essa incorporação à matriz educacional da maneira de funcionar já implementada no restante do campo social revela como esse campo, que já era problemático, se tornou ainda mais, sendo, a partir de então, aberto das mais diversas formas à intervenção de interesses ainda mais radicalmente comprometidos com a manutenção e o aprofundamento das desigualdades sociais, pela invisibilização da complexidade da realidade educacional brasileira. Esse tipo de regulação, realizado por meio de engenharia social, torna professores, alunos e famílias reféns de experimentos cada vez mais radicais de controle da subjetividade, como no caso da militarização das escolas, da plataformização do ensino e da vigilância e instrumentalização do trabalho docente.

